Planejada há mais de 20 anos para ligar Pará e Amapá por terra, a obra segue inacabada, mantém moradores presos às balsas, encarece tudo e vira símbolo de promessa ainda empacada na Amazônia.
(Macapá-AP) - Planejada desde 2001, a ponte sobre o Rio Jari, no extremo Sul do Amapá, continua inacabada, deixando Laranjal do Jari (AP) e Monte Dourado (PA) dependentes de balsas caras e lentas; trava a Rota de Integração 01; e mantém transportes, serviços públicos e produção regional vulneráveis a atrasos, filas, incertezas diárias e custos logísticos e sociais elevados.
Esta semana, uma cena inusitada tomou conta das redes sociais: Moisés Cordeiro, um morador da região do Jari (Sul do Amapá), resolveu fazer um protesto silencioso – mas autêntico – como forma de chamar a atenção das autoridades para o abandono da obra que pretende ligar as cidades de Monte Dourado (no Pará) a Laranjal do Jari (no Amapá).
O morador usou suas redes sociais para postar uma imagem dele próprio assentado sobre um dos pilares da ponte. A legenda da foto diz tudo sobre as intenções de Moisés Cordeiro: “Só saio daqui quando esta ponte estiver pronta”.
Segundo relatos de moradores da região, o manifestante permanece assentado sobre um dos pilares, como símbolo da insatisfação popular. E reafirma que só deixará o local após um posicionamento concreto sobre a reconstrução da ponte que, há mais de duas décadas, segue inacabada, apesar dos recursos públicos já investidos nela.
A construção da ponte sobre o Rio Jari teve início em 2002, e seria a primeira ligação terrestre do Amapá com o resto do país. O projeto inicial previu a construção de 406 metros de estrutura para ligar Laranjal do Jari, no Amapá, a Monte Dourado (PA).
Até agora, a obra já consumiu R$ 21 milhões dos cofres públicos e apenas 39% do previsto foi construído. Três dos pilares erguidos tiveram a estrutura abalada devido a um acidente causado por uma embarcação.
A IDEIA É BOA, MAS...
A ponte sobre o Rio Jari começou a ser erguida em 2001, com a promessa de finalmente unir, por terra, o Amapá ao restante do país. Mais de 20 anos depois, a ponte segue sem funcionar e mantém a travessia restrita às balsas. Com 406 metros de extensão e cerca de R$ 21 milhões já investidos até 2024, a estrutura virou um marco do atraso das obras estratégicas na Amazônia.
Em 2020, estimativas apontavam a necessidade de mais R$ 60 milhões para concluir a ponte. Valor bem abaixo dos R$ 400 milhões que “inflaram” manchetes alarmistas e confundiram o debate público. Desde então, o projeto foi incorporado à Rota de Integração 01, do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), com previsão de pelo menos mais R$ 10 milhões em intervenções. Mesmo assim, o cronograma de obras segue indefinido, prejudicando uma população que continua presa ao calendário e às falhas das balsas.
POR QUE A PONTE É ESTRATÉGICA PARA A AMAZÔNIA?
A ponte do Rio Jari sintetiza um gargalo logístico que ultrapassa a fronteira entre Laranjal do Jari, no Amapá, e o distrito paraense de Monte Dourado.
Atualmente, a região continua dependente de balsas sujeitas a horário, clima, capacidade limitada e paralisações, o que impacta diretamente o preço de alimentos, combustíveis, materiais de construção e até o deslocamento de servidores públicos e moradores em geral.
Com a conclusão da ponte, a expectativa é de redução do custo de frete, mais previsibilidade para o transporte de pacientes, estudantes, trabalhadores e população em geral, e maior integração rodoviária do Amapá com o restante do país.
VINTE ANOS DE PROMESSAS E UMA OBRA INACABADA
O projeto da ponte nasceu em um ciclo de expansão de rodovias na Amazônia, no início dos anos 2000. A ideia era substituir a dependência exclusiva do modal fluvial por um eixo rodoviário contínuo, conectando estradas do Pará e do Amapá.
Na prática, o que era para ser solução rápida virou um processo lento, marcado por sucessivas interrupções.
Danos em pilares causados por embarcações obrigaram reparos e reforços estruturais, alongando prazos e elevando custos.
Ao longo de diferentes governos, a ponte do Rio Jari passou por revisões de contrato, mudanças de prioridade orçamentária e períodos de virtual abandono.
O resultado foi uma estrutura avançada, mas ainda sem entrega efetiva à população, enquanto a travessia continua ancorada em um sistema de balsas já saturado.
NÚMEROS ATUALIZADOS E DISTORÇÕES NO DEBATE PÚBLICO
Até 2024, os dados mais citados por órgãos públicos e técnicos apontavam cerca de R$ 21 milhões já aplicados na ponte, com previsão de aproximadamente R$ 10 milhões adicionais vinculados à Rota de Integração 01.
Em 2020, projeções indicavam algo em torno de R$ 60 milhões necessários para a conclusão, patamar ainda distante dos R$ 400 milhões usados como manchete de jornais, em comparações com outras pontes da região.
As cifras infladas ajudaram a transformar a ponte do Rio Jari em alvo de polêmica nacional, muitas vezes sem separar o que é custo efetivo do que é extrapolação retórica.
Ao misturar a ponte do Rio Jari com outras obras maiores, parte do debate público passou a tratar a estrutura como obra “bilionária”, obscurecendo o problema central: a falta de continuidade, planejamento e fiscalização capazes de concluir uma infraestrutura de porte relativamente modesto, mas de alto impacto regional.
COMO O ATRASO AFETA OS MORADORES DA REGIÃO
Enquanto a ponte do Rio Jari não sai do papel, a rotina de quem mora na fronteira entre Amapá e Pará continua presa às balsas.
Filas, espera prolongada e suspensões de travessia em períodos de cheia, estiagem ou manutenção mecânica afetam o deslocamento diário de estudantes, trabalhadores, pacientes e pessoas em geral que precisam se deslocar para outras cidades.
Para empresas, o quadro significa frete mais caro, prazos mais longos e risco permanente de ruptura na logística.
Produtos básicos chegam com custo elevado, serviços públicos enfrentam dificuldade de deslocar equipes e equipamentos e o planejamento de investimentos privados esbarra na incerteza sobre a estabilidade do acesso terrestre.
ENTRAVES TÉCNICOS, INSTITUCIONAIS E AMBIENTAIS
Os sucessivos adiamentos na conclusão da ponte não podem ser explicados apenas pela falta de dinheiro.
A obra enfrenta uma combinação de problemas institucionais, técnicos e logísticos, incluindo investigações sobre contratos, desafios de fiscalização em área remota e ajustes de projeto exigidos pelas condições de navegação no Rio Jari.
A logística de transporte de materiais em plena floresta, com grandes distâncias até centros urbanos e variações severas de nível do rio, também pesa.
Cada temporada de cheias ou estiagens extremas impõe restrições ao avanço físico da obra, encarece mobilização de equipamentos e amplia o risco de danos adicionais à estrutura já construída.
O QUE PODE DESTRAVAR A CONCLUSÃO DA PONTE
A inclusão da ponte do Rio Jari na Rota de Integração 01, do Novo PAC, abre espaço para um redesenho da governança do projeto, com metas claras, aportes escalonados e exigência de transparência em cada etapa.
Para especialistas em infraestrutura regional, a chave está em vincular desembolsos a marcos físicos verificáveis, com fiscalização próxima de órgãos de controle e participação de entidades locais.
Ao mesmo tempo, a ponte do Rio Jari tornou-se um teste de credibilidade para a política de integração da Amazônia: se uma estrutura de 406 metros levar quase três décadas para ser entregue, a confiança em corredores logísticos mais complexos tende a se deteriorar.
A forma como o projeto será concluído pode servir de modelo positivo ou negativo para outras obras estratégicas na região, inclusive as que ainda serão licitadas.
Em um cenário em que a população continua esperando por uma travessia contínua por rodovia, a pergunta central permanece sem resposta: a ponte do Rio Jari será finalmente concluída dentro de um prazo verificável ou continuará como vitrine do descompasso entre promessa e realidade na infraestrutura da Amazônia?
E você, leitor, acha que a ponte do Rio Jari ainda será concluída a tempo de mudar a vida de quem depende das balsas ou já virou apenas mais uma obra eterna na paisagem da Amazônia? Dê sua opinião.
Fonte: Da Redação, com informações de Bruno Teles/clickpetroleoegas.com.br., e @bambamnewsoficial. Imagens: Divulgação/Internet.
Nenhum comentário:
Postar um comentário