Líder cristão foi assassinado nas Montanhas Nuba dias após outro ataque contra religiosos; igrejas denunciam perseguição e pedem proteção à população civil
A violência contra cristãos voltou a se intensificar no Sudão. O pastor Adel Idris Jongool, da Igreja Episcopal do Sudão, foi sequestrado e assassinado por integrantes de uma facção dissidente do Exército Popular de Libertação do Sudão-Norte (SPLA-N), apoiada por grupos extremistas islâmicos, segundo informações de líderes cristãos da região.
O crime ocorreu na sexta-feira (24), na área de Dabbi, no condado de Hiban, localizado nas Montanhas Nuba, no estado de Kordofan do Sul. Fontes da igreja, que pediram anonimato por questões de segurança, afirmam que o grupo armado invadiu a comunidade, capturou o pastor e o executou.
De acordo com os relatos, os militantes têm ampliado os ataques contra líderes religiosos e civis. Essa situação é impulsionada por disputas étnicas e motivações religiosas que agravam ainda mais o conflito na região.
O assassinato aconteceu apenas um dia depois de outro ataque registrado na cidade de Heiban. Na ocasião, um número ainda não confirmado de cristãos foi morto e outros líderes religiosos foram sequestrados.
A Diocese de Heiban, ligada à Igreja Episcopal do Sudão, confirmou o homicídio em nota oficial. O bispo Al-Sir Hassan Kuku lamentou a morte do pastor e apelou para que os grupos envolvidos no conflito respeitem as igrejas e seus líderes.
“Pedimos a todas as partes envolvidas no conflito que respeitem os líderes da igreja e as instituições religiosas”, declarou. Para o bispo, o assassinato de Adel Idris Jongool representa uma grave violação contra a liberdade religiosa e a dignidade humana.
Série de ataques
A morte do pastor ocorre pouco mais de um mês após outro episódio de violência contra cristãos. Em 19 de junho, um sacerdote católico e um de seus seguranças foram mortos na Paróquia da Santa Cruz, em Kauda, também em Kordofan do Sul, em um ataque atribuído ao mesmo grupo dissidente. Um segundo guarda foi baleado, mas sobreviveu após receber atendimento médico.
As Montanhas Nuba permaneceram relativamente isoladas da guerra civil iniciada em abril de 2023. Entretanto, o cenário mudou após a aliança entre o SPLA-N e as Forças de Apoio Rápido (RSF), abrindo uma nova frente de combate na região.
Desde então, confrontos entre diferentes facções armadas provocaram mortes, deslocamentos forçados e uma crescente insegurança para a população civil. Cristãos deslocados também passaram a ser alvo tanto das RSF quanto das Forças Armadas Sudanesas (SAF), acusados por ambos os lados de colaborar com grupos rivais.
Guerra agrava crise humanitária
O Sudão vive uma das mais graves crises humanitárias da atualidade. Desde o rompimento entre as SAF, lideradas pelo general Abdelfattah al-Burhan, e as RSF, comandadas por Mohamed Hamdan Dagalo, o país mergulhou em uma guerra que já provocou dezenas de milhares de mortes e forçou mais de 12 milhões de pessoas a deixar suas casas, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).
O conflito teve origem após o fracasso das negociações para integrar as forças paramilitares ao Exército regular durante o processo de transição política iniciado depois da queda do regime de Omar al-Bashir. As divergências entre os dois comandantes interromperam o acordo e desencadearam a guerra em abril de 2023.
Cristãos perseguidos
De maioria muçulmana — cerca de 93% da população —, o Sudão possui uma pequena comunidade cristã, estimada em 2,3% dos habitantes, conforme o Projeto Joshua. A situação da liberdade religiosa no país voltou a se deteriorar após o golpe militar de outubro de 2021.
Durante o período de transição iniciado em 2019, o governo havia promovido reformas importantes, como a revogação de leis de apostasia, a flexibilização de dispositivos da sharia e medidas para ampliar a proteção às minorias religiosas. Com a retomada do controle militar, organizações cristãs passaram a denunciar o retorno de práticas de perseguição.
Reflexo desse cenário, o Sudão ocupa atualmente a quarta posição na Lista Mundial da Perseguição 2026, elaborada pela Portas Abertas, que reúne os países onde os cristãos enfrentam os níveis mais severos de perseguição por causa da fé.
Fonte: Patrícia Scott/comunhao.com.br. Imagem: Divulgação/Portas Abertas.
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