terça-feira, 29 de setembro de 2026

Bets e os estragos que elas causam na vida do cristão

Mais uma vez as bets, que se tornaram um vício até mesmo entre os cristãos, estão de volta aos holofotes. Desta vez, porque o governo federal publicou nesta sexta-feira, dia 25 de setembro, uma medida provisória que proíbe apostas de quota fixa no país, as chamadas bets. A vedação inclui também jogos online e cassinos virtuais no país, como por exemplo, o “Jogo do Tigrinho”.

A MP será enviada ao Congresso Nacional e para se tornar lei definitivamente precisa ser votada em até 120 dias na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

O pastor e psicólogo Daniel Guanaes, da Igreja Presbiteriana do Recreio, na zona oeste do Rio de Janeiro, alerta que o vício em apostas online já é uma realidade crescente, mas ainda pouco visível dentro das igrejas. “Não tenho a ilusão de que os evangélicos estejam imunes. O problema já está presente, mas, por sua natureza disfarçada, ainda não aparece com clareza”, opina.

Para o pastor, diferentemente de jogos de azar como bingos e cassinos — que operavam de forma clandestina e envolviam grandes quantias em dinheiro —, as apostas esportivas digitais possuem uma aparência mais inofensiva, o que dificulta o reconhecimento do vício. “Hoje a pessoa joga pelo celular, influenciada por campanhas e figuras populares. Parece algo trivial, como um passatempo qualquer, e isso mascara os riscos reais”, observa.

Guanaes destaca que muitos só percebem a gravidade da situação quando o impacto já atinge áreas sensíveis da vida, como finanças e relacionamentos. “O vício compromete casamentos, destrói famílias e pode levar a situações perigosas, como dívidas com agiotas e ameaças à integridade pessoal.”

Ele critica abordagens exclusivamente moralistas dentro das igrejas e defende que o combate ao vício em apostas deve passar por estratégias de conscientização e informação. “Dizer apenas que é pecado não é suficiente. A igreja precisa atuar como um espaço de orientação, esclarecendo como esse comportamento leva à dependência e gera consequências profundas.”

Guanaes propõe que as comunidades de fé promovam encontros, palestras e discussões abertas para informar a comunidade sobre os riscos das apostas, criando um ambiente de apoio e prevenção. “Se a igreja assumir esse papel educativo, pode ser uma ferramenta poderosa na luta contra essa nova forma de vício que está se infiltrando silenciosamente na sociedade”, conclui.

Bênção divina?

O pastor e teólogo Kenner Terra sublinha a banalização de conceitos teológicos durante a CPI das Apostas Esportivas, em 2025, em especial após declarações da influenciadora Virgínia Fonseca, que chegou a associar seu sucesso à “justiça de Deus”, afirmando que sua prosperidade seria fruto de bênção divina.

No entanto, segundo o pastor Kenner, tal uso do termo desconsidera o impacto social de práticas que geram prejuízo a milhares de famílias. “Entre os principais alvos das apostas estão os brasileiros com renda de até dois salários mínimos — mais de 52% do total de apostadores”, adverte.

Do ponto de vista bíblico, o pastor cita Salmos 82.3,4 para redefinir o verdadeiro sentido da justiça de Deus: “Defendam os fracos e os órfãos; façam justiça aos pobres e oprimidos. Livrem os necessitados das mãos dos ímpios.”

Para o teólogo, não há como dissociar os ganhos de influenciadores da dor alheia. “Jogos de azar, como o jogo do bicho ou as apostas online, são mecanismos que alimentam vícios e destroem vidas. Promover esse tipo de prática é lucrar com a desgraça do próximo”, avalia.

Kenner rebate o argumento comum de que “joga quem quer” ao lembrar que o vício em apostas, assim como outras formas de dependência, é uma doença. “A questão não é apenas liberdade de escolha, mas o tipo de sociedade que estamos construindo. Quando aceitamos lucrar com a fragilidade dos outros, estamos coletivizando a insensibilidade. Paulo chamaria isso de carnalidade.”

No entendimento de Kenner, o papel da fé cristã é proteger os mais vulneráveis — não justificar sistemas que os exploram. “A justiça divina não compactua com a exploração dos pobres. É preciso discernir entre bênção e privilégio construído à custa do sofrimento alheio.”

Crise social

O pastor e teólogo Leonardo Félix, criador do canal Fé Equilibrada no YouTube, fez um pronunciamento contundente sobre o avanço das casas de apostas no Brasil. Ele classificou o fenômeno como um “vício institucionalizado” que estaria promovendo manipulação e danos sociais, especialmente entre os mais vulneráveis.

“As bets se tornaram as maiores patrocinadoras do esporte e da internet. Estão em todos os lugares — clubes, transmissões esportivas, redes sociais — por meio de influenciadores digitais”, ponderou o pastor. Ele também criticou a atuação desses influenciadores, como no caso de Virgínia Fonseca, ouvida na CPI das Apostas Esportivas, a quem acusou de tratar o tema com superficialidade.

Com base em ensinamentos bíblicos, Leonardo relaciona o vício em apostas à busca desenfreada por dinheiro fácil, algo que, segundo ele, conduz à pobreza e à escravidão emocional. “A Bíblia é clara: o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. As apostas prometem liberdade, mas aprisionam.”

De acordo com o pastor, a participação de cristãos nesse universo não se sustenta do ponto de vista espiritual. “Não há base bíblica que justifique. Participar disso é pecado. É preciso se afastar completamente, deletar contas, buscar caminhos mais saudáveis para investir tempo e dinheiro.”

Félix chama atenção para a prática de empresas de apostas fornecerem logins específicos a influenciadores para simular ganhos em campanhas publicitárias. Segundo ele, isso pode induzir o público a acreditar que é fácil lucrar, quando na realidade a maioria perde. “É uma armadilha que engana, sobretudo, pessoas em situação de vulnerabilidade, como beneficiários do Bolsa Família.”

Ele também relata a força do lobby das casas de apostas na política e na mídia como um dos fatores que impedem um debate mais profundo e efetivo. “Hoje, emissoras e clubes estão amplamente financiados por essas empresas. O nome do campeonato, as placas de publicidade, os uniformes — tudo carrega o selo das bets.”

Por fim, Leonardo Félix faz um apelo para que seus seguidores e a sociedade em geral se posicionem contra o que chama de “sistema diabólico”. “Essa não é apenas uma questão religiosa. É uma crise social. Famílias estão sendo destruídas. Precisamos alertar, aconselhar e agir.”

Fonte: Patrícia Scott/comunhao.com.br. Imagem: Divulgação/Internet.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eleições 2026: O peso da responsabilidade no Segundo Turno

O momento decisivo das Eleições 2026 de hoje, segundo turno , coloca diante de cada cidadão brasileiro uma das atribuições mais expressivas...